sexta-feira, 28 de março de 2014

A ÁGUIA E A GALINHA

"Ao ver uma galinha e uma águia, você vai ver mais do que uma galinha e uma águia. Você vai se confrontar com duas dimensões fundamentais da existência humana. A dimensão do enraizamento, do cotidiano, do prosaico, do limitado: o símbolo da galinha. A dimensão da abertura, do desejo, do poético, do ilimitado: o símbolo da águia. Como equilibrar estes dois pólos? Como impedir que a cultura da homogeneização afogue a águia dentro de nós e nos tolha voar? Fazer conviver a águia e a galinha dentro de cada um de nós: eis a questão. Cumpre buscar o caminho do meio ao dar a cada uma a sua importância. Mas cuidado! Sem jamais dissociá-las. Então emerge o arquétipo da síntese da totalidade dinâmica, tão buscado pelo coração humano. Ai de nós se nos contentarmos em ser somente galinhas, se nos permitirmos que nos reduzam a simples galinhas: encerrados em nosso pequeno mundo, de interesses feitos e de parcos desejos, com um horizonte que não vai além da cerca mais próxima. Não disse o poeta Fernando Pessoa: “eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”? Somos galinhas, seres concretos e históricos. Mas, jamais devemos esquecer nossa abertura infinita, nossa paixão indomável, nosso projeto infinito: nossa dimensão águia. Ai de nós, se pretendermos ser apenas águias que voam nas alturas, que enfrentam tempestades e têm como horizonte o sol e o infinito do universo. Acabaremos morrendo de fome. A águia, por mais que voe nas alturas, é obrigada a descer ao chão para se alimentar, caçar um coelho, uma preguiça ou qualquer outro animal. Somos águias. Mas devemos reconhecer nosso enraizamento numa história concreta, numa biografia irredutível com suas limitações e contradições: nossa dimensão – galinha. Sejamos galinhas e águias: realistas e utópicos, enraizados no concreto e abertos ao possível ainda não ensaiado, andando no vale, mas tendo os olhos nas montanhas. Recordemos a lição dos antigos: se não buscarmos o impossível (a águia) jamais conseguiremos o possível (galinha)." Leonardo Boff

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