terça-feira, 16 de agosto de 2011

RELATOS


Ao ler o livro Autobiografia de um Espantalho, do neuropsiquiatra francês Boris Cyralnik, chamou-me a atenção o poder que o relato tem na resiliência de pessoas traumatizadas.
É possível modificar os sentimentos íntimos de uma pessoa agindo sobre os relatos que a cercam, tanto sobre o que é dito como sobre o modo de dizê-lo. A retórica, ao dar uma forma verbal e gestual aos acontecimentos que ela conta, estrutura a intimidade dos indivíduos. Assim, ao invés de pedir para uma pessoa esquecer um determinado assunto, que provoque sofrimento, devemos incentivá-la a falar, pois a cada vez que ela reconta a história, ela resignificará o fato ocorrido, aliviando assim a sua dor.
Vendo por esse viés, entendemos que todo relato é uma defesa, uma legítima defesa. Sempre que pensamos em nosso passado, procuramos redefini-lo. Basta endereçar esse relato aos outros para modificarmos nossas relações, para deixamos de nos sentir como nos sentíamos antes.
As experiências que vivenciamos ao serem retratadas precisam estar situadas no tempo e no espaço. Temos a necessidade de entender o que aconteceu, como estamos e como vamos superar o fato vivenciado. Quando não conseguimos fazer tais conexões, sentimo-nos como que perdidos, afinal de contas é difícil estabelecer uma relação com nada.
Um relato não é uma volta ao passado, é uma reconciliação com a própria história. Ao contarmos algo, mostramos uma imagem, damos uma coerência aos acontecimentos, como se sarássemos uma injusta ferida. A fabricação de um relato em si preenche um vazio das origens que perturbava nossa identidade. Fragmentos de memória são resgatados e as representações sociais dão significado às lacunas de incompreensão.
É por isso que dizemos que todos os relatos são autênticos, assim como são verdadeiras as quimeras. Necessitamos fantasiar, de vez em quando, para podermos suportar a dor e seguir em frente. A quimera narrativa é dinâmica: triste ou alegre, e corre ao encontro dos outros para lhes contar a história. Mas a maneira como o interlocutor reage modifica, sobretudo, o estilo de nossa expressão, ou seja, sentimentos e significados terminam sendo retroalimentados, a partir dessa interação.
No caso de pessoas atormentadas por situações traumáticas, o meio mais eficaz de alcançar autonomia é falar sobre o ocorrido. Quanto mais se fala, mais se melhora.

sábado, 13 de agosto de 2011

TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL


As sucessivas armações que o vilão Léo vem fazendo, desde o início da novela Insensato Coração, refletem exatamente um quadro típico de Transtorno de Personalidade Antissocial. Trata-se de um comportamento delinqüencial, com início na infância e adolescência e que se caracteriza por um padrão repetitivo de conduta antissocial, agressiva e desafiadora, cujo sintoma mais marcante é uma forte inclinação ao delito.

A pessoa que apresenta este transtorno, ao fazer uma maldade, não consegue sentir culpa ou remorso. Não raro acusa os colegas e tenta culpar qualquer outra pessoa ou circunstância por suas eventuais más ações. A baixa tolerância a frustrações causa crises de irritabilidade, explosões temperamentais e agressividade exagerada. Outra característica no comportamento do portador de Transtorno de Personalidade Antissocial é a crueldade com outras pessoas e/ou com animais.

É válido salientar que o Transtorno de Conduta é um diagnóstico especialmente infantil ou da adolescência, pois, depois dos 18 anos, persistindo os sintomas básicos (contravenção), o diagnóstico deve ser alterado para Transtorno da Personalidade Antissocial.

Este padrão sociopático de comportamento costuma estar presente em todos os contextos sociais que o indivíduo freqüenta, quer seja na escola, no lar, ou na rua. Age com intencionalidade na busca de causar sérios danos ou destruição da propriedade alheia com incêndios, quebrando vidros de automóveis e praticando atos de vandalismo por onde anda.

Por serem indivíduos extremamente manipuladores, aprendem que a expressão de culpa pode reduzir ou evitar punições, assim, não titubeiam em demonstrar remorso sempre que isso resultar em benefício próprio.

Comportamentos menos severos (por ex., mentir, furtar em lojas, entrar em lutas corporais) tendem a emergir primeiro, enquanto outros (por ex., roubo, estupro...) tendem a se manifestar mais tarde.

Não está estabelecida ainda uma causa única para este tipo de transtorno, mas se acredita que seja em decorrência da integração entre características individuais e forças ambientais. Certamente devem influenciar as atitudes e comportamentos familiares, assim como a exclusão sócio-econômica, a má distribuição de renda, a inversão dos valores, a desestrutura familiar, dentre outros fatores.

Os tratamentos citados na literatura são bastante variados, incluindo intervenções junto à família e à escola (por exemplo, psicoterapia familiar e individual, orientação de pais, comunidades terapêuticas e treinamento de pais e professores em técnicas comportamentais).

EMBRIAGUEZ


"Às vezes também é preciso chegar até a embriaguez, não para que ela nos trague, mas para que nos acalme: pois ela dissipa as preocupações, revolve até o mais fundo da alma e a cura da tristeza assim como de certas enfermidades. (...) Sêneca