
Ao ler o livro Autobiografia de um Espantalho, do neuropsiquiatra francês Boris Cyralnik, chamou-me a atenção o poder que o relato tem na resiliência de pessoas traumatizadas.
É possível modificar os sentimentos íntimos de uma pessoa agindo sobre os relatos que a cercam, tanto sobre o que é dito como sobre o modo de dizê-lo. A retórica, ao dar uma forma verbal e gestual aos acontecimentos que ela conta, estrutura a intimidade dos indivíduos. Assim, ao invés de pedir para uma pessoa esquecer um determinado assunto, que provoque sofrimento, devemos incentivá-la a falar, pois a cada vez que ela reconta a história, ela resignificará o fato ocorrido, aliviando assim a sua dor.
Vendo por esse viés, entendemos que todo relato é uma defesa, uma legítima defesa. Sempre que pensamos em nosso passado, procuramos redefini-lo. Basta endereçar esse relato aos outros para modificarmos nossas relações, para deixamos de nos sentir como nos sentíamos antes.
As experiências que vivenciamos ao serem retratadas precisam estar situadas no tempo e no espaço. Temos a necessidade de entender o que aconteceu, como estamos e como vamos superar o fato vivenciado. Quando não conseguimos fazer tais conexões, sentimo-nos como que perdidos, afinal de contas é difícil estabelecer uma relação com nada.
Um relato não é uma volta ao passado, é uma reconciliação com a própria história. Ao contarmos algo, mostramos uma imagem, damos uma coerência aos acontecimentos, como se sarássemos uma injusta ferida. A fabricação de um relato em si preenche um vazio das origens que perturbava nossa identidade. Fragmentos de memória são resgatados e as representações sociais dão significado às lacunas de incompreensão.
É por isso que dizemos que todos os relatos são autênticos, assim como são verdadeiras as quimeras. Necessitamos fantasiar, de vez em quando, para podermos suportar a dor e seguir em frente. A quimera narrativa é dinâmica: triste ou alegre, e corre ao encontro dos outros para lhes contar a história. Mas a maneira como o interlocutor reage modifica, sobretudo, o estilo de nossa expressão, ou seja, sentimentos e significados terminam sendo retroalimentados, a partir dessa interação.
No caso de pessoas atormentadas por situações traumáticas, o meio mais eficaz de alcançar autonomia é falar sobre o ocorrido. Quanto mais se fala, mais se melhora.
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