sexta-feira, 16 de setembro de 2011

CONTEMPORANEIDADE

“E o futuro não é mais como era antigamente”, já dizia Renato Russo. Mas o que mudou afinal no nosso tempo? Muita coisa. Nossa relação com os valores, as referências e as práticas são outras. Agora, as marcas é que nos dão identidade. Somos reconhecidos não mais por quem realmente somos, mas pelo que possuímos. Um carro possante ou uma roupa de grife falam muito mais alto do que um discurso inteligente. É uma pena, mas o mundo está assim. Encontrar culpados talvez não seja a alternativa mais acertada, entender o contexto, sim. Nosso tempo é muito diferente de tempos anteriores, mesmo os mais recentes. Desde a da bomba de Hiroshima, o futuro se tornou mais angustiante. A contracultura dos anos 60 encontrou seus limites. O sonho acabou. Acabaram também as grandes ideologias. Os pilares da sociedade estão sendo constantemente questionados e desacreditados. Estamos perdendo a fé nos políticos, na religião, nas empresas, no casamento e até na própria família. Uma sensação de abandono, uma espécie de orfandade, tem permeado nossas vidas. Em nome da segurança, procuramos proteção da violência urbana no “encasulamento”. Passamos a morar em apartamentos e em condomínios horizontais protegidos por cercas elétricas, câmeras e vigilância privada. Pensamos duas vezes antes de sair, temendo assaltos, seqüestros-relâmpagos ou arrastões em restaurantes. Demandamos mais e mais serviços de entrega em domicílio, da pizza ao sushi, passando de remédios a produtos de sex-shop. Assim, preferimos ficar em casa assistindo a um filme no home-theater ou, então, teclando com amigos nas redes sociais. Nossas relações, assim como nossas compras, estão cada vez mais virtuais. Buscamos a comodidade e proteção de nossos casulos. Não raro na WEB nos escondemos em codinomes e avatares utilizados como escudos para falar, pensar e sentir despudoradamente. Na efemeridade das coisas nasce o Twitter, onde dizemos o que queremos sem saber para quem. Essa ferramenta de comunicação está se propagando da mesma forma que ocorreu com o ORKUT, no qual o simples fato de alguém mudar o status no perfil de “namorando” para “solteiro”, tem o mesmo peso simbólico de uma pessoa casada tirar a aliança. A reação dos internautas é imediata. O luto e as vinculações afetivas estão mais velozes porque os ritmos e as coisas estão mais velozes também. Fortes emoções marcam a intensidade dos relacionamentos, do mesmo modo que a intermitência dos sentimentos. De repente ficamos perdidamente apaixonados e por pouca coisa desinvestimos rapidamente de nossos amores. A fila precisa andar. Não temos tempo a perder. O sentimento de urgência nos angustia. O estresse é uma constante. Estamos correndo o tempo todo. Só que não sabemos para onde. Antigamente tínhamos muitos objetivos e poucos recursos para alcançá-los. Hoje, temos uma diversidade de recursos à nossa disposição, mas não temos bem definidos nossos reais objetivos. Tal situação só faz aumentar o nosso desconforto diante da vida. Para aplacar esse mal-estar começamos a buscar uma ancoragem no passado, valorizando a simplicidade das coisas e os relacionamentos mais verdadeiros. Chega de fugacidade. Queremos mais fixidez, nem que seja com uma simples tatuagem feita no próprio corpo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário