domingo, 2 de outubro de 2011

A ARTE DE OUVIR


O ato de ouvir é um dos mais simples e curativos atos humanos. Quantas vezes já não saímos com um amigo que passou o tempo todo nos relatando um problema e, nós nem sequer chegamos a emitir uma opinião, mas mesmo assim ao final do encontro o amigo nos agradeceu pela conversa? Na maioria das vezes precisamos apenas de alguém que nos ouça. Simplesmente ouvir. Não aconselhar nem orientar, mas ouvir silenciosamente, totalmente.
Por que será que ser ouvido tem tanto poder de cura? Não sabemos qual é a resposta completa a essa pergunta, porém sabemos que tem algo a ver com o fato de que ouvir cria uma relação.
E a relação é a tendência natural da vida. Estamos nesse mundo interconectados com o Universo. Os vínculos se estabelecem a partir do processo de comunicação. Por esse motivo, todos nós temos histórias a contar, mas se ninguém nos ouve, contamos a nós mesmos, e então começamos a nos isolar e a solidão poderá até se transformar em loucura.
Baseado no livro O Segredo Judaico de Resolução de Problemas, é possível identificar três dimensões no processo da escuta ativa: o aparente do aparente, o oculto do aparente e o aparente do oculto.
O aparente do aparente diz respeito à dimensão do óbvio e do concreto. É o que é facilmente ouvido, percebido, entendido, mensurado e quantificado. No entanto, um perigo constante ronda a dimensão do óbvio e do concreto. Trata-se da possibilidade de se perder a compreensão de que o aparente do aparente seja sempre a representação de uma redução quando percebido através da perspectiva da existência. Reside aí o embrião da confusão e da expectativa de que tudo possa ser reduzido a esta estrutura tão confortavelmente perceptível pela mente humana. Fazendo uma associação com um iceberg, o aparente do aparente é a parte que está visível.
A dimensão oculto do aparente reflete o que está por trás do aparente e que pode ser percebido desde que seja buscado. Convém ressaltar que em momento algum esta dimensão propõe algo que não possa ser categorizado como óbvio, mas sim, que este óbvio encontra-se numa condição de oculto.
A terceira dimensão é conhecida como aparente do oculto e corresponde àquilo que é percebido, mas não se sabe como explicar. Estamos no campo da intuição e pode ser exemplificada quando, mesmo faltando dados concretos, desconfiamos que uma pessoa possa não estar falando a verdade. O aparente do oculto é um mergulho na subjetividade e pode se manifestar pelo olhar, pelo gesto, por uma expressão, entre outras formas. Retornando à metáfora do iceberg, pode ser feita uma analogia com a parte que está submersa; não está aparente e não percebemos a sua profundidade, mas sabemos que ela está lá.
A identificação e compreensão dessas dimensões ampliam a nossa capacidade de escuta ativa, porém, somente se efetiva com a existência do vínculo com o outro.
Ao praticar uma escuta ativa, portanto, aumentaremos as probabilidades de compreender o interlocutor e, a partir desse entendimento, poderemos atender às suas necessidades, estabelecendo com ele um vínculo sustentável para o fortalecimento da relação.


Baseado no texto: A Arte de Saber Ouvir - As Dimensões da Escuta Ativa, de Rossini de Azevedo Medeiros.

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